Os anos foram passando e as feiras diminuindo. Na minha cidade sobrou poucas feiras boas de se ir, apenas as de sábado e domingo, essa continuavam enormes. Levava meus filhos, a tradição dos pasteis do Japonês foi passada mas já entendia que não era japonês e sim chinês....
Fui morar numa casa de esquina onde aos domingos havia uma feira, a maior da cidade. O movimento dos feirantes me acordava cedo, as 4 da manhã começavam a chegar, procuravam não fazer muito barulho, mas não tinha jeito. Abria a janela e já via seu Edu, vendia bananas... "Dia seu Edu, quenta aí que a água tá no fogo". Assim que o café saia tomava um café com ele para tirar a friagem da madrugada. As 7 pegava meu carrinho de feira e ia me abastecer, tinha meus feirantes prediletos, aqueles que falavam mais... "Bom dia "seu" Osvaldo, hoje o brócolis tá especial, precinho especial pro senhor, pode levar dois!" Quando chegava no "Japonês", mesmo antes do bom dia já ouvia ela gritar: "Bota dois de carne pro "seu' Osvaldo, caprichado, e já vai preparando dois de pizza e um de palmito para viagem".
As feiras eram assim, muita gente boa, simples, humildes. Vi os mais velhos partir, filhos herdarem o "empreendimento". Alguns que me atendiam conheci ainda nas fraldas, num quadrado improvisado de caixas de verdura.
O tempo passa, mudei de cidade, de costumes. Já não conseguia mais ir à feira. Os sacolões brotavam em cada esquina, os hipermercados... Comprar frutas e verduras perderam o glamour...
E o tempo continuou passando e, como diria meus filhos paulistas, surtei! Abandonei tudo para morar na roça. Quando colhi meu primeiro pé de alface, meu primeiro cacho de banana, me veio a lembrança do seu Edu, da D. Filomena, da Catarina, daquelas pessoas maravilhosas que esbanjavam simplicidade.
Um dia, vendo a abundância da minha pequena produção, resolvi levar para a feira. Nunca imaginei que um dia eu estaria do outro lado da banca. Infelizmente as feiras de hoje não são como antigamente. Empolgado, montei minha barraquinha e arrumei os produtos, tudo pronto e lá vinha um cliente, mandei de primeira: "Bom dia D. Maria, pode escolher e encher a bacia..." Meus vizinhos me olharam assustados e creio que até hoje devem falar daquele cara meio louco que gritava na feira....
