domingo, 18 de agosto de 2019

Eu e as feiras...

Lembro-me das feiras quando ainda criança, no meu bairro acontecia aos sábados. Feira grande, com muita gente grande! Ia segurando na barra da saia de minha mãe - para não se perder. Minha mãe, para os de casa, tinha o apelido de feirinha, juntava os trocados que ganhava durante a semana com os cortes de cabelo e no sábado ia para a feira. Andava por horas, vendo e revendo os produtos. Conhecia muitos feirantes pelo nome. Na época os feirantes eram bem humorados, brincavam, gritavam, tinham seus bordões: "Bom dia dona Maria! Vem encher a bacia". "Pode chegar... mulher bonita não paga mas também não leva!". Conheci as feiras assim, cheias de gente com aqueles carrinhos próprios para feiras que eu adorava puxar... Mas confesso que eu gostava mesmo era do pastel de carne do japonês, enorme, que eu enchia mais ainda com o molho vinagrete.
Os anos foram passando e as feiras diminuindo. Na minha cidade sobrou poucas feiras boas de se ir, apenas as de sábado e domingo, essa continuavam enormes. Levava meus filhos, a tradição dos pasteis do Japonês foi passada mas já entendia que não era japonês e sim chinês....
Fui morar numa casa de esquina onde aos domingos havia uma feira, a maior da cidade. O movimento dos feirantes me acordava cedo, as 4 da manhã começavam a chegar, procuravam não fazer muito barulho, mas não tinha jeito. Abria a janela e já via seu Edu, vendia bananas... "Dia seu Edu, quenta aí que a água tá no fogo". Assim que o café saia tomava um café com ele para tirar a friagem da madrugada. As 7 pegava meu carrinho de feira e ia me abastecer, tinha meus feirantes prediletos, aqueles que falavam mais... "Bom dia "seu" Osvaldo, hoje o brócolis tá especial, precinho especial pro senhor, pode levar dois!" Quando chegava no "Japonês", mesmo antes do bom dia já ouvia ela gritar: "Bota dois de carne pro "seu' Osvaldo, caprichado, e já vai preparando dois de pizza e um de palmito para viagem".
As feiras eram assim, muita gente boa, simples, humildes. Vi os mais velhos partir, filhos herdarem o "empreendimento". Alguns que me atendiam conheci ainda nas fraldas, num quadrado improvisado de caixas de verdura.
O tempo passa, mudei de cidade, de costumes. Já não conseguia mais ir à feira. Os sacolões brotavam em cada esquina, os hipermercados... Comprar frutas e verduras perderam o glamour...

E o tempo continuou passando e, como diria meus filhos paulistas, surtei! Abandonei tudo para morar na roça. Quando colhi meu primeiro pé de alface, meu primeiro cacho de banana, me veio a lembrança do seu Edu, da D. Filomena, da Catarina, daquelas pessoas maravilhosas que esbanjavam simplicidade.
Um dia, vendo a abundância da minha pequena produção, resolvi levar para a feira. Nunca imaginei que um dia eu estaria do outro lado da banca. Infelizmente as feiras de hoje não são como antigamente. Empolgado, montei minha barraquinha e arrumei os produtos, tudo pronto e lá vinha um cliente, mandei de primeira: "Bom dia D. Maria, pode escolher e encher a bacia..." Meus vizinhos me olharam assustados e creio que até hoje devem falar daquele cara meio louco que gritava na feira....

Sem comentários:

Enviar um comentário